31 de jan. de 2008

O processo das coisas simples III

Quando iniciei o processo das coisas simples resolvi fazer uma alusão dentro daquilo que consegue unir tão quanto desunir o ser humano: a verdade e sua composição na hierarquia de valores de cada um. Agora indago o processo de persuasão de uma verdade na simplicidade da complexidade dos momentos no conjunto de valores de cada um. É incrível como atualmente as pessoas em vez de discutirem e dissecarem um valor preferem polemizar o subterfúgio da hierarquia que cada um possui dele, pois os valores de uma pessoa não têm, obviamente, todos eles a mesma importância. Poderíamos afirmar como bem disse Suárez Abreu que num processo persuasivo da palavra a maneira como o pensamento hierarquiza os seus valores chega a ser, às vezes, até mais importante do que os valores em si, o que acho o contrário. O que caracteriza o pensamento é também o valor que ele admite e dele como constrói a sua hierarquia. A exploração das hierarquias é um campo extraordinário. Em um processo persuasivo, é mortal rejeitar um valor construído pelo pensamento de seu interlocutor. E afinal o pensamento que conseguiu visualizar uma verdade é pessoal ou coletivo? Moto-contínuo... sempre disse que quando lermos algo se faz necessário na pré-reflexão, indagar: o que será que o escritor quer que eu entenda. Quem conta um conto aumenta um ponto. Atualmente o conceito de consciência foi denegrido pela mídia, onde tudo se pode racionalizar e explicar e sob o patrocínio do “big brother” (1984 de Orwell) vamos manipulando sendo manipulados. E neste rol de estratégias descobrimos o verdadeiro “eu” tentando persuadir a vida. Para todos e incrivelmente os mais crentes “no pedacinho do céu” a verdade torna-se muitas vezes pura fantasia, todas essas distorções, todos esses epiciclos para assegurar que o universo que vivemos esteja de acordo com a verdade “terapêutica”. Por exemplo: na ciência, por definição, nada é sagrado; a teoria mais respeitada pode ser derrubada por um experimento que a contradiga. É por causa desta disposição de submeter às idéias ao teste da realidade que a ciência, como nenhum outro sistema de crenças, nos deu tanto poder para prever e controlar a natureza. Sob este aspecto, ela é muito diferente de qualquer religião ou filosofia da “verdade”. Mas antes que alguém me atire a primeira pedra indagando ferozmente onde fica a fé... Continuo; como há séculos mostraram os filósofos, o método empírico nem sempre é tão direto como parece. Uma verdade bem sucedida pode ter criado pernas próprias, vida própria (como a interpretação de um livro) implantando-se com tal profundidade na mente das pessoas que se torna quase invulnerável aos desafios da realidade inicial. Ameaçada por dados que não tem como explicar até que a estrutura se assente de forma mais confortável nos alicerces ou se torne tão grotesca que não consiga mais se sustentar. Nesse caso, o objetivo não é preservar a força motriz da verdade, como único centro de criação, mas preservar pelo maior tempo possível mais uma invenção humana que nos serve tão bem em nosso cantinho da galáxia que temos esperança do que seja importante em escala universal. E é importante. E vamos nos enquadrando nas esquinas entre a fé de virtude e a fé de pânico vamos heroicamente sobrevivendo construindo constelações de verdades que no final querem abraçar eternamente os nossos momentos... os nossos tesouros.


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